O Google e o conhecimento

Área de Atuação: Gestão da Informação

Meu pai está na faixa dos 70 anos. Ele é veterinário, sempre foi apaixonado pela vida no campo e avesso a tecnologias. Isto, porém, não o torna uma pessoa inculta ou com limitações para aprender, muito pelo contrário ele é professor universitário aposentado e muito bem conceituado em seu meio.

Imagino que vc deve estar se perguntando o que o meu pai, que é veterinário, tem a ver com um artigo sobre administração de empresas. Fique tranquilo, pois só estou dando estas informações para contextualizar este artigo.

Recentemente, recebi uma ligação, na qual ele me fez a seguinte pergunta:- “Tu consegue tirar uma foto e colocar no computador?”. Respondi com um “Sim pai, consigo sim”. Ainda desconfiado, ele continuou - “E tu consegue, depois, colocar esta foto na parede?”. Por já conhecê-lo bem, entendi que ele queria era saber se a foto poderia ser projetada com a auxilio de um data show, tornei a dizer que conseguia.

Logo ele me contou que tinha sido convidado para dar uma palestra e precisava tirar uma foto de um osso com determinada doença para incluir na apresentação. Pediu que quando eu tivesse um tempo, passasse em sua casa para ajudá-lo a colocar “a foto na parede”.

Quando eu cheguei lá ele me informou que o tal osso estava no congelador e que eu precisaria esperar até que descongelasse para tirar a foto. Enquanto eu esperava, tive a idéia de procurar no Google por uma foto de um osso com o problema que ele queria. Liguei o computador e, em pouco mais de um minuto, já estava com o conceito, os tipos e características da tal doença, além de várias fotos ilustrativas. Chamei-o para ver se era aquilo mesmo que precisava e cheguei a ficar impressionado com a sua surpresa. Ele fez uma cara de espanto e disse: - “É! É isso mesmo, mas como que tu sabe? Tu não é veterinário?” Aí eu expliquei que tinha buscado informações no Google e fiquei ainda mais abismado quando ele me perguntou: -“Mas quem é esse tal de Google?” Obviamente que a pronúncia dele não foi a que estamos acostumados, pois ele leu Google exatamente como se escreve.

Esclareci, com toda a paciência, que Google, na verdade, era uma das empresas mais valiosas e inovadoras do mundo e que usávamos o nome para designar seu mecanismo de busca na internet. Disse que, com tal mecanismo poderíamos encontrar informações sobre praticamente tudo. Depois desta resumida e pausada explicação, a minha surpresa em relação ao seu desconhecimento e sua postura, que já era enorme, ficou maior ainda, quando ele largou a seguinte frase: - “Mas, se eu sou o ministro da educação, eu proíbo esse negócio na casa dos alunos”. Não tive como me conter e falei: - “Tu tá louco? Proibir por quê? Tem é que incentivar o uso desta ferramenta”. Aí ele insistiu: - “Não, tem que proibir sim, senão os alunos só vão precisar ler isso aí para aprender. Não vão mais precisar ir às aulas e os professores ficarão desempregados”.

Certamente, ele ter dito que deveriam proibir o uso do Google foi uma das maiores surpresas de toda minha vida. Nunca tinha imaginado que alguém fosse reagir assim quando apresentado a esta fantástica ferramenta . Eu tinha imaginado que ele falaria algo do tipo: -“Mas, que legal! Como você descobriu isto... Me ensina a usar...” ou no máximo, - “Nossa! O que não inventam hoje em dia?”. Porém, jamais pensei em me deparar com tamanha indignação em defesa de que tal site fosse proibido.

Depois do susto inicial, procurei colocar-me no lugar dele e comecei a me dar conta de que tinha algo de coerente em seu comentário, tendo em vista a sua realidade.

Na verdade o que a internet, aqui representada pelo Google, fez foi quebrar o paradigma de que o conhecimento é um diferencial para os profissionais e que deve ser mantido sob sigilo e só revelado quando necessário e em troca de algo.

Meu pai nasceu na primeira metade do século passado, quando o conhecimento ainda era visto como um bem precioso ao alcance de poucos. Ele sempre pagou por todo o seu aprendizado. Logo, em sua opinião, é inadmissível que alguma empresa disponibilize tantas informações gratuitamente e de uma maneira que podem ser tão facilmente acessada. Obviamente que ele não vê lógica nisto, pois é uma situação diferente de tudo o que vivenciou ao longo de sua vida. E isto lhe parece, no mínimo, chocante.

Para pessoas com o histórico igual ao do meu pai é muito difícil conviver com a informação gratuita e acessível a todos. O contexto não faz sentindo para elas e as faz ficar perdidas e sem saber como agir.

Apesar de todo o despropósito de sua indignação, uma questão que ele levantou é relevante. Quando ele diz que os professorem irão ficar desempregados, a afirmação, de certa forma, tem coerência, tendo em vista o tipo de professores que existiam antigamente. Estes professores somente passavam informações para os alunos. Praticamente ensinavam conceitos para suas classes e nunca lhes ensinavam a pensar sobre os conteúdos passados.

Até bem pouco tempo atrás, os estudantes somente poderiam falar em sala de aula se fosse para fazer uma pergunta em relação a algo que não entenderam. Não eram estimulados e dar suas opiniões e nem a fazer comentários sobre os assuntos expostos. Eram ensinados a tratar os professores por senhor e senhora e nunca questionar seus pontos de vista. Era uma relação muito diferente da que vivenciamos hoje, na qual os alunos são estimulados a dar suas opiniões em sala de aula e os professores entendem que o debate é benéfico para o crescimento. Levando em conta esta conjuntura, não é tão incoerente a reação do meu pai frente ao tal de Google (como se lê).

Levando em conta todas as mudanças que a transmissão do conhecimento vem sofrendo ao longo de nossa história, lembrei-me de um texto de Peter Druker, no qual ele diz que “o conhecimento, que sempre havia sido um bem privado, transformou-se em bem público”. Esta nova realidade mexe muito com o dia-a-dia das empresas atualmente. O que as empresas se perguntavam antigamente era “onde vou adquirir conhecimento?”. Porém hoje em dia, com a informação disseminada, a pergunta que se deve fazer é outra, tal pergunta é “o que devo fazer com o conhecimento que tenho disponível para gerar valor à minha organização?” De fato, hoje o diferencial está em saber utilizar a informação e não em possuí-la. Assim, o grande desafio das empresas atualmente é transformar a informação disponível em conhecimento, disseminar-lo na organização e criar valor a partir dele. Acredito que este seja o grande desafio que empresas, empresários e profissionais têm que aprender a lidar atualmente.

Outro desafio que das empresas diz respeito à disseminação do saber. Tal desafio, seguramente é mais fácil de ser vencido do que o anterior, pois para disseminar o conhecimento, as empresas podem utilizar várias práticas, tais como: Criar fóruns, trocar melhores práticas, realizar work shops, elaborar listas de discussão entre funcionários, etc.

Existem várias empresas que utilizam o conhecimento como um suporte em suas tomadas de decisões. Porém, as que conseguem criar valor a partir dele, fazem com que o conhecimento se torne um ativo seu. E é aí que reside o diferencial competitivo que toda organização deve buscar.

Tal procedimento tem um enorme impacto na longevidade das empresas, pois aquelas que agregarem valor ao seu negócio a partir do conhecimento adquirido conseguirão adaptar-se mais rápida e eficazmente às novas realidades e conseqüentemente estarão mais preparadas para as mudanças que certamente acontecerão.

Vale lembrar que nem só as empresas devem saber transformar o conhecimento em ativo, mas os profissionais também. É muito comum anúncios de empregos solicitarem profissionais que sejam dinâmicos, que gostem de trabalhar em equipe, que tenham experiência na função, etc. Contudo, o que se busca é um profissional que faça acontecer, que dê resultado. Na verdade as organizações querem um profissional capaz de transformar toda informação que lhe será passada no treinamento em conhecimento e que, a partir disto, consiga criar valor para si e sua equipe,atingindo os resultados que a organização busca. Obviamente, habilidades como ser dinâmico e saber trabalhar em equipe são fundamentais para o sucesso na maioria dos cargos, mas também torna-se necessário a capacidade de mobilização da equipe e, com base no conhecimento orientar as atividades da equipe para otimizar suas ações e atingir resultados.

Sem dúvida, estas mudanças estão exercendo um forte impacto em nossa sociedade. Deixamos de ser uma sociedade focada na produção, como éramos até após a Revolução Industrial, e passamos a ser uma sociedade focada na disseminação do conhecimento. Segundo Druker, “nossa sociedade é certamente pós-capitalista”. As mudanças que ocorrem em nossa sociedade ou em nossa cultura acontecem lentamente e são de difícil percepção. Elas se tornam mais presentes quando interagimos com pessoas de gerações diferentes, como pode-se constatar no diálogo que tive com meu pai.

Artigo postado por: Conrado Vianna Hoffmann
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Excelente!

Conrado. Parabéns pelo artigo. Excelente. É uma referência comparativa muito interessante e mostra que grandes mudanças afetam nossas vidas e, as vezes, não percebemos... O mesmo ocorre nas empresas...

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